terça-feira, 5 de junho de 2018

Dia de campo apresenta técnicas de conservação de forragem em propriedade de Casa Nova



A estratégia de produzir e armazenar forragem, na época de chuva, para alimentar os rebanhos, no período seco, é das mais eficientes e baratas que os agricultores do Semiárido têm às mãos para elevar a produção das suas propriedades. Os cultivos de espécies que podem ser combinadas para compor a dieta dos animais e as técnicas de armazenamento por vários meses compõem iniciativas capazes de efetivar inovações tecnológicas nos sistemas agrícolas. Um exemplo foi apresentado no dia de campo realizado no dia 16 de maio, no Sítio Terra Seca, município de Casa Nova-BA, pela Embrapa Semiárido e a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco – CHESF, por meio do Projeto Lago de Sobradinho
O Sítio, especializado na criação de caprinos de leite e processamento de queijo de cabra, registrou nos últimos três anos uma transformação técnica importante. Sustentada pela implantação de uma infraestrutura hídrica e forrageira, além da assistência de profissionais vinculados àquele projeto, a propriedade tem alcançado uma evolução produtiva e na renda da família a ponto de se firmar como uma espécie de referência para a agricultura local. Daí a escolha para sede do dia de campo sobre “Produção, conservação e armazenamento de forragem”.    
Evolução - O evento reuniu 154 agricultores/as, técnicos/as, estudantes do curso de Agronomia da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e do Colégio Sete de Setembro (Sento Sé-BA). E, de acordo com o pesquisador José Nilton Moreira, da Embrapa Semiárido, sua realização no dia 16 coroa uma sequência de capacitações e treinamentos voltados para questões relacionadas ao manejo do rebanho, orientação a respeito de raças leiteiras adaptadas ao Semiárido, produção de sementes e mudas e cultivos de espécies forrageiras como a palma, gliricídia, além de milho e sorgo.  
O produtor Aldeí da Silva, proprietário do Sítio Terra Seca, relata a evolução da apropriação de novos conhecimentos e tecnologias e os impactos que foi contabilizando na produção. De início, diz, conseguia tirar 15 litros de leite por dia de 60 cabras “pé duras”, numa quantidade bastante para elaborar “1-2 kg de queijo por dia”. Depois, “a gente começou com o plantio de leucena, palma e gliricídia e o volume de leite de 30-40 litros que fez saltar a produção de queijo”.
O passo seguinte, explica, foi substituir parte do seu rebanho por cabras da raça Saanen. Assim, com animais melhorados reduziu de 60 para 40 a quantidade de animais na propriedade e registrou como resultado o total médio de 50-80 litros de leite/dia tirados em duas ordenhas, o que lhes assegura a produção de 10-12 kg de queijos diariamente. “As coisas melhoraram bastante”, afirma Aldeí.
Aldeí, 35 anos, e Regiane Reis, 32, são filhos de agricultores. Ela, por um tempo, ainda exerceu a profissão de professora do município, atuando em escola distante 30km de sua residência. Ele, que tem o ensino médio completo, atua como prestador de serviço na prefeitura. Da união de 15 anos nasceram dois filhos gêmeos, hoje com 12 anos, que ajudam em algumas atividades na propriedade.
Estações - O dia de campo foi organizado de modo a expor algumas das responsáveis pelos bons resultados com a criação pecuária na propriedade. Para permitir uma apresentação didática para os participantes, foram divididas em quatro estações: 1, preparo de solo e uso de barragem subterrânea; 2, cultivos das forrageiras mais tolerantes à seca; 3, conservação dessas forragens priorizando a ensilagem; e 4, manejo do rebanho. Em cada uma delas, além das explicações dos pesquisadores e técnicos da Embrapa, Aldei e Regiane se fizeram presentes, relatando sua experiência.
O Projeto Lago de Sobradinho é resultado de cooperação técnica entre a Embrapa Semiárido e a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco – CHESF. A sua execução é apoiada por outro conjunto de instituições de âmbitos federal, estadual e municipal, e entidades da sociedade civil, a exemplo das prefeituras municipais dos cinco municípios localizados no entorno do lago formado pela barragem de Sobradinho.

Ações futuras - O evento realizado no Sítio Terra Seca, além de pesquisadores e técnicos da Embrapa Semiárido, teve a presença do gestor do Termo de Cooperação pela CHESF, Rodolfo de Sá Cavalcanti. Com elogios à “ação educacional que melhora a produtividade dos sistemas agrícolas e assegura independência ao agricultor” destacou que é “a partir de experiências como essas que a CHESF está viabilizando a prorrogação desse projeto por mais dois anos”.
Também esteve presente o representante do Departamento de Meio Ambiente da CHESF, Nevio Cichelero Spadoa, que monitora o Termo de Cooperação também com a Embrapa Semiárido: Eólicas de Casa Nova. A CHESF também está envidando todos os esforços para, ainda esse ano, dar início ao Projeto Lagos do São Francisco, em conjunto com a Embrapa Semiárido, e que irá expandir a ação de desenvolvimento das instituições a mais 12 municípios de Pernambuco, Bahia, Alagoas e Sergipe.

* Texto originalmente publicado no Portal da Semiárido (ver aqui).

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Pesquisa avalia impactos socioeconômicos da implantação de tecnologias de baixo custo em unidade familiar


Na comunidade de São Bento, zona rural do município baiano de Remanso, já são mais de 5 anos que as chuvas ocorrem abaixo da média e antecipam a seca das plantas que, sem folhas, reduzem a muito pouco a capacidade de suporte forrageiro da Caatinga na alimentação dos rebanhos. Em muitas propriedades, as baixas ou até mesmo perdas totais das produções nesse período fizeram crescer a renda derivada de atividades não agrícolas, como é o caso das aposentadorias, no sustento dos agricultores e de suas famílias. Não foi o que aconteceu, no entanto, no Sítio Jirau.

Desde 2010, os proprietários do sítio – o casal Ranulfo Lopes de Almeida e Maria das Graças Gomes de Almeida – fazem parte de um  projeto de transferência de tecnologia realizado pela Embrapa Semiárido em parceria com a Chesf que abrange tanto a agricultura de sequeiro como a irrigada. O trabalho foi desenvolvido por meio de Campos de Aprendizagem Tecnológica (CATs), uma espécie de espaço pedagógico para experimentações técnicas individuais e comunitárias. Durante o projeto, foram implantadas culturas como palma Orelha de Elefante, leucena, sorgo e gliricídia, além de atividades como a pasteurização de leite para o processo de fabricação de queijo de leite de cabra.

Um estudo realizado pelo pesquisador José Lincoln Araújo, da Embrapa Semiárido, revelou que as tecnologias introduzidas na propriedade ao longo do projeto produziram impactos sociais e econômicos significativos, proporcionando um aumento expressivo da renda agrícola na unidade produtiva estudada e, consequentemente, melhorando a qualidade de vida da família.

De acordo com o estudo, o número de animais dos rebanhos caprino e ovino existentes no período de instalação do CAT  triplicou após 6 anos de execução do projeto, passando de cerca de 100 cabeças para aproximadamente 300. Os animais comercializados antes da intervenção na propriedade eram bem jovens (3 a 4 meses) e pesavam em torno de 5kg – isso porque, no período de seca, não havia comida disponível para a alimentação de todo o rebanho. Atualmente, são vendidos cerca de 70 animais por ano, geralmente machos, com peso médio de 12kg, ao preço de R$ 120,00 cada animal, gerando uma renda anual de R$ 8.400,00 para os produtores.

Outro impacto econômico bastante significativo para a melhoria da renda na propriedade estudada foi a ampliação da produção do queijo de cabra, que passou de quatro para dez unidades diárias (600g), no período de maior lactação do plantel, e da produção de um para quatro unidades, no período de menor lactação. A atividade gera uma renda aproximada de R$ 3.000,00 mensais nos períodos com maior lactação e R$ 1.200,00 no período de menor lactação.

Ainda segundo o estudo, o comparativo do total da renda agrícola obtida antes e depois da introdução do CAT apresenta a ocorrência de um incremento superior a 200%. Antes da intervenção tecnológica, a renda não agrícola, que corresponde às aposentadorias rurais do casal de produtores, representava mais de dois terços da renda total da família, enquanto atualmente a renda agrícola supera a não agrícola.

Houve, ainda, melhoria no nível do bem-estar físico e social: a substituição da energia, antes proveniente de placa solar emprestada, por energia elétrica; a melhoria no padrão alimentar; e o aumento de bens de consumo, com a renovação de diversos eletrodomésticos, entre eles geladeira, máquina de lavar roupa, televisão etc. – todos sinais marcantes da recente melhora da qualidade de vida da família.


* Texto originalmente publicado na edição especial número 47 do Jornal do Semiárido, de janeiro de 2018 (ver aqui).

terça-feira, 20 de março de 2018

Participação impulsiona melhores resultados dos projetos de desenvolvimento rural



A cooperação entre a Embrapa Semiárido e a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), por meio do Projeto Lago de Sobradinho, está assentada em metodologias participativas e em situações que aproximam o conhecimento científico-tecnológico das experimentações postas em prática por organizações da sociedade civil e agricultores. Essas ações diretamente no meio real, no entanto, remontam a um histórico de experiências e a um conjunto de estudos, por parte da Embrapa, que tiveram início ainda na década de 1970.
O pesquisador e coordenador do Projeto Lago de Sobradinho, Rebert Coelho Correia, relata que, até chegar a este modelo de intervenção, pesquisadores e técnicos da Embrapa Semiárido percorreram um longo itinerário de abordagens que, num primeiro instante, integrava uma orientação interdisciplinar e focada na propriedade agrícola sob determinada situação agroecológica, com o objetivo de confrontar práticas de produção com as ofertas de tecnologias da pesquisa.
Os resultados registrados em um projeto anterior com essa orientação, executado em Ouricuri-PE, foi que a “adoção de inovações necessitava de um ambiente favorável que poderia ser potencializado em ações incrementadas nas comunidades rurais”, afirma Rebert. E foi o que se buscou em outro ambiente físico, no distrito de Massaroca, Município de Juazeiro-BA, com a “adoção de métodos de planejamento e intervenção para o desenvolvimento rural, planejado e controlado pelos agricultores, em nível de comunidades rurais”.
O passo seguinte se deu com o projeto de “Desenvolvimento Comunitário da Região do Rio Gavião”, implementado de 1999 a 2016, em uma área de, aproximadamente, 14.000 km², compreendendo 13 municípios das regiões Sudoeste e Serra Geral do Estado da Bahia, que, à época contavam com, aproximadamente, 40.000 famílias quase totalmente em situação abaixo da linha de pobreza. Em parceria com o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida) e do Governo do Estado da Bahia, por intermédio da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), órgão da Secretaria de Desenvolvimento Rural, o desafio enfrentado foi o de demonstrar a viabilidade técnica dos conhecimentos gerados pela pesquisa e o potencial das atividades agropecuárias do Semiárido brasileiro.
Com a Chesf, no Projeto Lago de Sobradinho, as ações estão voltadas para as unidades produtivas de agricultores familiares e de pescadores dos municípios do entorno do Lago de Sobradinho, prioritariamente, por meio de suas organizações. Um instrumento metodológico adotado para compor esse conjunto de atores são os chamados Campos de Aprendizagem Tecnológica (CATs), em geral, com dimensão de 1 hectare.
Na estratégia operacional do projeto, os CATs são uma espécie de espaço pedagógico para experimentações técnicas individuais e comunitárias, e programação de atividades de formação e de capacitação. A localização e instalação obedece a uma dinâmica que remontou inicialmente à indicação de agricultores de perfil agregador, inovador, por vezes líder informal ou não, que agissem para favorecer um diálogo sócio-técnico entre as equipes do projeto e os segmentos agrícolas nas comunidades.
Segundo Rebert Correia, “resultados impressionantes” advieram dos 14 Planos de Ação que integram o Projeto Lago de Sobradinho. Em um deles, o de Olericultura, houve registro de incremento da produtividade acima de 80%, além da economia de 50% de água, 80% de fertilizantes e 30% de mão de obra. Em outro, relacionado à Apicultura, que teve ativa participação de professores e técnicos da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e da Bahiater em cursos de capacitação, a apropriação de inovações tecnológicas que fizeram as produtividades saltarem de aproximadamente 13 kg/colmeia/ano para cerca de 40 kg/colmeia/ano.
A favor destes resultados atuou sólida parceria institucional construída pela Embrapa e Chesf junto a entidades não governamentais, representantes dos movimentos sociais da região, Fórum de Integração, colônias de pescadores, cooperativas e associações de agricultores familiares e sindicato dos trabalhadores rurais. “A articulação ampliada junto a outros atores atuantes nos municípios será a base para a execução dos novos projetos e que devem incrementar a melhoria da segurança alimentar e a renda dos agricultores”, conclui o pesquisador da Embrapa.


* Texto originalmente publicado na edição especial número 47 do Jornal do Semiárido, de janeiro de 2018 (ver aqui).

quarta-feira, 14 de março de 2018

“Trabalhosa mas gratificante”, diz piscicultora sobre criação de peixes no Lago de Sobradinho




A rotina é extenuante, com atividades que não podem deixar de ser executadas várias vezes, dia após dia, mesmo que esteja cravado no calendário como sábado, domingo ou feriado. Um descuido e Neuraci de Jesus Silva sabe que serão menos quilos de peixes a colher nos 54 tanques-rede que mantém no lago formado pela Barragem de Sobradinho, no Rio São Francisco, e, consequentemente, menor a renda com a qual sustenta os três filhos.

Na sede da associação Acripeixess, que mantém com mais quatros sócios - Albaneide Santos Pinto, Edivane Limoeiro de Sousa (presidente), Jocecino José dos Santos e Maria das Graças -, a sequência de atividades começa cedo e vai até à tardinha: carregar o carrinho de mão com um saco de ração de 25kg e depois percorrer um caminho inclinado e pedregoso de mais de 100m  até a margem do rio, onde vai precisar transferir o saco para um barco. Em seguida, dar boas remadas até os tanques e, em cada um, encher uma vasilha com ração e jogar, para a alegria dos peixes confinados.

Ao longo do dia, e a depender do peso dos peixes, terá de repetir o percurso algumas vezes: se os peixes têm de 5g a 60g, serão 6 vezes; de 100g a 200g, vai repetir quatro vezes; três, quando têm entre 400g e 600g; e duas se pesam acima de 700g.

Quase sempre sozinha nessas atividades, Neuraci não reclama. Na verdade, aos 40 anos, se considera realizada. Nascida em Itiúba, região sisaleira da Bahia, há 12 anos desembarcou em Sobradinho com pai, mãe e irmãos na expectativa de melhorar de vida, como pescadores. E a essa atividade se dedicaram por vários anos na nova cidade.

Para ela, em 2003, o ingresso na associação mudou “muito” a dinâmica da sua vida de pescadora. Ao passar a criar peixes (Tilápia Rosa) em tanques-rede instalados em um único lugar, deixou de precisar se deslocar pelo rio para pontos distantes em jornadas que, por vezes, podiam levar mais de dias.

“Uma vez, para construir a casa que moro hoje, passei três meses pescando, vivendo debaixo de lona. A filha, tive de deixar com a vizinha para que não faltasse a escola”, revela.

Se, por um lado, facilitou o trabalho num só local, por outro aumentaram as preocupações com manejo dos peixes criados em cativeiros, com a racionalização dos recursos necessários à boa produtividade dos lotes instalados em cada um dos 54 tanques de sua propriedade e, ainda, com as estratégias de comercialização. Quando começou tinha somente 12 tanques.

Projeto - Ao iniciar as atividades, a Acripeixess era formada por 25 filiados. Atualmente está reduzida a cinco – quatro mulheres e um homem que, desde 2013, participam das atividades do Projeto Lago de Sobradinho, junto com pesquisadores e técnicos da Embrapa Semiárido e da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf).

Com a estratégia de experimentar técnicas de produção em meio real, os coordenadores do projeto fizeram a cessão de seis tanques-rede para cada um dos associados e eles passaram a ter o compromisso de, a cada 15 dias, registrar informações detalhadas acerca da quantidade de ração fornecida, peso, preço dos peixes, dentre outros dados que auxiliam na elaboração de inovações técnicas e gerenciais para ampliar a produtividade dos piscicultores.

De acordo com o coordenador do projeto, o pesquisador da Embrapa Semiárido Rebert Coelho Correia, “os dados nos permitem fazer um balanço da produção e ser mais precisos nos cálculos de rentabilidade da piscicultura. Temos constatado rendimentos de cada membro que chega a quase R$ 3.000,00 por mês. Melhor que o obtido em muitas atividades na região”, garante.

A atuação do projeto nessa área está relacionado ao Plano de Ação 7 (Reestruturação da pesca e da piscicultura), que está sob a gestão da pesquisadora Daniela Bacconi Campeche, da Embrapa Semiárido. Segundo ela, a atividade precisa da rápida iniciativa dos órgãos responsáveis para superar problemas como a falta de licenciamento ambiental, que impede o acesso dos produtores ao crédito bancário.

“Esse é o maior gargalo relatado por 100% dos produtores locais atualmente. Ter uma atividade deste porte, com lucratividade e sem financiamento, é só para quem realmente tem afinidade com a atividade”, garante Daniela.

“Todos os produtores já dominam o manejo da produção, sabem escolher bons fornecedores de alevinos e de rações. Mas ainda falta melhorar a gestão do negócio como um empreendimento, o planejamento estratégico e o controle de qualidade para ter um pescado mais homogêneo”, afirma . 

Com relação ao projeto, a piscicultora Neuraci Silva é categórica: “Conheci e gostei”. Continua ela: “O cooperativismo aqui é realidade, um ajuda o outro. Quatro pessoas vivem do peixe, só um tem outra atividade”. Ela própria exercia outra profissão, e tem até formação para isso – é Técnica em Enfermagem. Mas de antemão já avisa que não pretende mudar sua atuação.

“Talvez eu tivesse que trabalhar em vários hospitais para ter a renda que tenho aqui e sem a mesma alegria. Então, eu prefiro trabalhar com o peixe”, explica com um riso de satisfação.

O peixe de Neuraci, já tratado (sem as vísceras), tem destino certo: “viaja” para cidades baianas como Capim Grosso, Campo Formoso e Itiúba, onde é comercializado.

“Trabalho no que gosto, me sustento e ainda sustento meus filhos.” Neuraci de Jesus Silva


* Texto originalmente publicado na edição especial número 47 do Jornal do Semiárido, de janeiro de 2018 (ver aqui).

quarta-feira, 7 de março de 2018

Parceria pelo desenvolvimento rural no Vale do São Francisco







Nas suas perspectivas institucionais, a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), com seu Programa de Responsabilidade Social, e a Embrapa Semiárido, com sua agenda de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), estabeleceram uma dinâmica de cooperação técnica que tem materializado métodos, meios e instrumentos de apropriação de conhecimentos e de tecnologias pelos agricultores e suas organizações. Os resultados são significativos.

Nos municípios baianos do entorno do lago formado pela Barragem de Sobradinho - Casa Nova, Pilão Arcado, Remanso, Sento Sé e Sobradinho - as equipes técnicas das duas empresas desdobraram-se na execução de um amplo programa de capacitação e de experimentações agrícolas em meio real, que tem incrementado nas propriedades uma infraestrutura produtiva, impactando na geração de renda dos agricultores e no desenvolvimento das comunidades rurais.

Na estratégia de intervenção do projeto estabeleceu-se, em 2010, metas de beneficiar direta e indiretamente cerca de 594 e 9.000 agricultores familiares, respectivamente. Em outubro de 2017 esses números já eram bem maiores: 744 e mais de 13 mil.

Alcançou-se um público dessa dimensão em um processo de articulação com organizações da sociedade civil (associações, cooperativas, sindicatos, colônias de pescadores etc.) e instituições públicas de ensino, de assistência técnica e extensão rural, e de regulação ambiental. Além disso, firmou-se importante interlocução com as prefeituras municipais e suas secretarias de agricultura, meio ambiente e desenvolvimento rural.

Mais que isso, no entanto, o projeto se ancorava na pluriatividade agrícola que havia sido constatada nas visitas aos municípios ainda na etapa da sua elaboração. Assim, incorporou objetivos e metas não apenas em questões tecnológicas e na sua transferência para os sistemas de produção. Chesf e Embrapa foram ao campo como espaço de vida, onde agricultores, vaqueiros e pescadores convivem junto aos recursos naturais e à produção pecuária e agrícola, integrando-se na perspectiva da sustentabilidade.

Da mesma forma, incorporaram conceitos de que o Bioma Caatinga é também território e espaço de desenvolvimento, que guarda e conserva potencialidades sociais, econômicas e ambientais inerentes aos indivíduos, às famílias, comunidades e  municípios.

Selou essa cooperação a determinação de atuarem para superar os impactos causados a milhares de ribeirinhos com a construção da Barragem de Sobradinho. À época, a população afetada se defrontou com a abrupta transformação dos seus hábitos e história.

O foco no desenvolvimento acelerado não percebeu o vazio cultural e tecnológico que as populações deslocadas das margens do rio e das áreas de influência da barragem tinham, para que pudessem se apropriar das novas oportunidades que se apresentavam. Estas populações possuíam valores e sistemas de produção e de vida pouco compatíveis com aquelas que chegavam atraídas pelas obras da barragem e situações advindas da nova dinâmica.

Na avaliação do administrador Rodolfo de Sá Cavalcanti, gestor da Chesf do Termo de Cooperação com a Embrapa Semiárido, “os resultados obtidos, apesar dos devastadores efeitos da seca no Semiárido baiano, durante o período do projeto, são surpreendentes e auspiciosos, recuperam e/ou restituem perdas do público-alvo do projeto, levando esperança e júbilo aos beneficiados, e incentivo para a ampliação de ações e iniciativas por parte das empresas”.

De fato, os resultados obtidos neste projeto ensejaram a Chesf e a Embrapa Semiárido a estenderem a cooperação técnica e elaborarem novas propostas, com a finalidade de promover sistemas de produção agropecuários mais harmonizados com o bioma  e que se traduzam no incremento da produtividade, na redução dos custos de produção e na melhoria da qualidade de vida dos agricultores e de suas famílias. Deste modo, se aproxima do desenvolvimento sustentável de comunidades rurais submetidas a sérios problemas sociais e econômicos.


* Texto originalmente publicado na edição especial número 47 do Jornal do Semiárido, de janeiro de 2018 (ver aqui).

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Projeto beneficia produtores do entorno das Eólicas de Casa Nova



Por meio de uma parceria firmada entre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), mais de mil produtores familiares do entorno dos parques eólicos de Casa Nova (BA) serão beneficiados, com ações que visam fortalecer a agropecuária na região.

De acordo com o coordenador do projeto Eólicas de Casa Nova, o pesquisador da Embrapa Semiárido Rebert Coelho Correia, as ações têm uma dinâmica participativa e original. “Nós construímos a proposta promovendo consultas a órgãos públicos acerca do potencial agropecuário, problemas produtivos e ambientais, e das carências técnicas no entorno da região. Nossa intenção é aproximar os processos de inovação e de participação, pois grande parte do projeto vai ser desenvolvido em pequenas áreas de demonstração ou de experimentação técnica, em propriedades de agricultores ou entidades com perfil agregador e multiplicador”, destaca.

As atividades do projeto tiveram início em janeiro desse ano, com a realização de entrevistas com 72 produtores da área do parque. A partir das entrevistas, estão sendo selecionadas propriedades para a instalação dos Campos de Aprendizagem Tecnológica (CATs). Eles funcionarão como salas de aula a céu aberto, servindo como locais de exposição e, ao mesmo tempo, de irradiação das inovações, por meio da realização de eventos de transferência de tecnologias, treinamentos e capacitações de agricultores e profissionais vinculados a órgãos públicos e privados de assistência técnica e extensão rural.

Essas entrevistas também serão utilizadas, posteriormente, para comparar a realidade dos agricultores antes e depois do projeto. “Nós temos duas expectativas: primeiro de recuperar o ambiente que foi mexido, uma vez que, para a construção ou recuperação de estradas dos parques eólicos foi retirada a vegetação e solo de algumas áreas denominadas jazidas e, segundo, de deixar os agricultores que estão naquela área com uma vida melhor do que têm hoje”, conta o pesquisador da Embrapa Semiárido José Nilton Moreira.

Com o início das chuvas na região, outras ações começaram a ser realizadas nesse mês de fevereiro, a exemplo da distribuição de sementes de culturas alimentares, como feijão, abóbora e milho, e também de material forrageiro, como mudas de gliricídia, raquetes de palmas e sementes de sorgo. Além disso, o gestor técnico do projeto por parte da Chesf, Nevio Cichelero Spadoa, esteve na região e visitou, juntamente com uma equipe de pesquisadores da Embrapa, a área de atuação do projeto, onde se localizam seis jazidas que foram utilizadas para construção das estradas que viabilizaram o transporte das torres eólicas dos parques.

Segundo Francisco Pinheiro Araújo, pesquisador da Embrapa Semiárido, durante a visita foi possível observar mudanças no cenário das jazidas, em comparação com o relatório elaborado em 2015, quando os parques ainda estavam terminando de ser instalados, como a ocorrência de plantas nativas nos locais onde já existia um pouco de matéria orgânica. “Ao longo do projeto, pretendemos construir poços artesianos, construir e/ou ampliar barreiros para fazer irrigação complementar, além de fazer um manejo de solo nessas jazidas, tentando dar uma condição mínima para o plantio de espécies nativas”, conta.

As atividades do projeto têm foco na sustentabilidade da agropecuária na região, envolvendo sistemas de produção de importância econômica, social e ecológica, como a fruticultura de sequeiro, a criação de abelhas e de caprinos, ovinos e bovinos para leite e corte e para a elaboração de produtos alimentares derivados, a exemplo do queijo.

As estratégias adotadas objetivam, ainda, mitigar o uso excessivo dos recursos naturais e de insumos agrícolas, sem prejuízo da produtividade agrícola e da segurança alimentar das famílias. Também será realizada uma avaliação do potencial agrícola dos solos do município, além de um estudo dos impactos das ações executadas ao longo dos três anos de duração projeto.

Responsabilidade Social – O projeto “Ações de desenvolvimento para produtores agropecuários do entorno dos parques eólicos de Casa Nova-BA” (Eólicas de Casa Nova) é fruto de uma união de esforços institucionais no desenvolvimento de ações de Responsabilidade Social. Por um lado, a Embrapa Semiárido busca materializar métodos, meios e instrumentos de incorporação dos resultados da pesquisa aos sistemas de produção agropecuários, visando o incremento da produtividade, a redução dos custos de produção e a melhoria da qualidade de vida dos produtores familiares, sempre alinhados aos aspectos ambientais. Por outro lado, a Chesf se esforça em minimizar as dificuldades enfrentadas pela população impactada pela implantação dos parques eólicos no município e atender às condicionantes ambientais do licenciamento ambiental dos seus empreendimentos.

Assim, cabe à Embrapa Semiárido a coordenação do projeto, envolvendo parte significativa de sua equipe técnica e garantindo a interdisciplinaridade que o enfoque sistêmico e participativo, além do suporte administrativo e infraestrutura. A Chesf financia as ações do projeto. E a Prefeitura de Casa Nova também integra a parceria, disponibilizando profissional para condução dos trabalhos de campo e mediação das ações entre os pesquisadores e agricultores, além de ceder espaço para instalação do escritório do projeto no município.

A ação é continuidade de uma parceria iniciada em 2010, por meio do Projeto Lago de Sobradinho, que se estende até o ano de 2018. Esta ação, realizada nos municípios baianos de Casa Nova, Pilão Arcado, Remanso, Sento Sé e Sobradinho, contou com a participação de mais de 13 mil produtores em cursos, palestras e dias de campo. Também instalou e monitorou cerca de 640 Campos de Aprendizagem Tecnológica (CATs) e distribuiu mais de 130 toneladas de material genético, como manivas de mandioca, sementes de feijão, milho, milheto, sorgo, mudas de espécies forrageiras (palma, leucena e gliricídia), além de umbu gigante, maracujá-do-mato e outras frutíferas de espécies nativas. O projeto gerou, ainda, diversos resultados de pesquisa, com a publicação de mais de 80 artigos técnico-científicos.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Embrapa - Chesf Novos Projetos





Expandindo uma parceria que deu bons resultados no Projeto Lago de Sobradinho, a Embrapa Semiárido e a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) firmaram mais dois acordos de cooperação para executar o projeto “Ações de desenvolvimento para produtores agropecuários do entorno do parque eólico de Casa Nova-BA – Eólicas de Casa Nova” e “Ações de desenvolvimento para produtores agropecuários e estudantes dos Lagos do São Francisco”.

O primeiro tem execução de seis Planos de Ação (PAs) prevista até 2020 e circunscrita a propriedades rurais localizadas no entorno do parque eólico, contemplando aproximadamente 25% da área total do município (9.697,4 km²). Sua meta é beneficiar, diretamente, 82 e, indiretamente, 1.050 agricultores familiares em temas como sistema de produção de leite e de produtos alimentares, fruticultura de sequeiro e criação racional de abelhas.

O segundo é mais abrangente. Fruto de cooperação envolvendo Embrapa Semiárido, a Chesf e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), terá atuação em 12 municípios de quatro estados na região do Médio São Francisco: Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco.

Ao longo de 36 meses, tempo de duração do projeto, equipes multidisciplinares de pesquisadores, professores e técnicos desenvolverão os trabalhos por meio de dez Planos de Ação, com metas e objetivos voltados à formação de 4 mil agricultores e agricultoras familiares.

Durante a sua execução, serão realizados cursos, treinamentos, palestras e dias de campo, envolvendo não apenas pessoas das comunidades assistidas, mas, também, de outras áreas dos municípios, com a finalidade de ampliar a adoção das tecnologias.

As estratégias constantes nos Planos de Ação têm, ainda, o objetivo de mitigar o uso excessivo de insumos nos plantios e dos recursos naturais, sem prejuízo da produtividade agrícola e da segurança alimentar das famílias.


* Texto originalmente publicado na edição especial número 47 do Jornal do Semiárido, de janeiro de 2018 (ver aqui).